Cada vez mais anti-imigração, Europa vai torcer por filhos de imigrantes na Copa do Mundo

Cada vez mais anti-imigração, Europa vai torcer por filhos de imigrantes na Copa do Mundo
Seleções europeias, que estão entre as mais fortes do mundo, terão grande quantidade de jogadores com ascendência estrangeira nesta Copa. No cenário social, crises e crescimento da extrema direita levaram governos a endurecer regras migratórias.
Em meio a um movimento generalizado para endurecer regras migratórias por toda aUnião Europeia, europeus de diversos países voltarão suas esperanças pelo título na Copa do Mundo a… filhos de imigrantes.

As seleções europeias têm registrado nos últimos anos um aumento na quantidade de descendentes de imigrantes em seus elencos. A presença desses jogadores já é consolidada entre os principais times do velho continente, e se repetiu nas convocações para esta Copa:

➡️ Essas quatro seleções estão entre as favoritas para vencer o torneio — junto comEspanha, Portugal, Argentina e Brasil—, segundo projeção feita pela Opta, especializada em estatísticas de futebol.

Os dados são de um levantamento feito pelog1a partir das convocações finais para a Copa do Mundo, que será disputada entre junho e julho nos EUA, noMéxicoe noCanadá(veja no infográfico abaixo).

“Essas seleções são um excelente retrato dessas sociedades europeias, que passaram a ser mais multiculturais e multirraciais [nas últimas décadas]”, afirmou aog1Maurício Santoro, doutor em Ciência Política e Sociologia pelo Iuperj.

A França, inclusive, é uma das seleções mais fortes do mundo nas últimas décadas e chegou a duas finais consecutivas nas duas últimas Copas, em 2018 e 2022 —quando foi campeã e vice, respectivamente.

Essas campanhas foram construídas por times de alta diversidade étnica, e desta vez não será diferente:a equipe é liderada porKylian Mbappé e Ousmane Dembélé, ambos filhos de imigrantes e que estão entre os melhores jogadores do mundo atualmente.

Essa diversidade é resultado de um fluxo migratório mundial rumo à Europa que remonta o século XX e ao neocolonialismo — período em que os europeus fizeram a partilha da África entre si.

Ao mesmo tempo, diversos países do bloco europeu tomaram medidaspara endurecer as regras migratórias.O discurso anti-imigração é uma bandeira da extrema direita, que ganhou terreno nos últimos anos e passou a ocupar mais cadeiras nos parlamentos nacionais e a influenciar governos.

Veja na arte abaixo as proporções dos jogadores filhos de imigrantes não-europeus e as ascendências mais comuns em algumas das principais seleções europeias nesta Copa:

Veja no final da matéria um maior detalhamento sobre a ancestralidade dos jogadores dessas seleções europeias.

O fluxo de imigração rumo à Europa começou em meados do século XX, por volta da década de 1960, conforme as colônias europeias da África e da Ásia começaram a se tornar independentes, segundo explicou aog1Adriano Freixo, professor de Relações Internacionais na UFF e autor de “Futebol — o outro lado do jogo”.

Buscando uma vida melhor, imigrantes rumaram ao continente europeu, em muitos casos com destino ao ex-colonizador.

O processo continuou nas décadas seguintes. Já no século XXI, acrise dos refugiadoslevou mais de1,5 milhão de pessoasa entrarem na União Europeia, entre os anos de 2014 e 2016.

Em 2022, o número cresceu ainda mais:5,3 milhõesde pessoas nascidas fora da Europa ingressaram no bloco(veja abaixo).

Crescimento da extrema direita

Os altos números de imigração alimentaram o crescimento da extrema direita no continente europeu, ao lado de um contexto de crise e declínio nas condições de vida.

Segundo especialistas ouvidos pelog1,esse grupo político costuma utilizar os imigrantes como "bode expiatório" para problemas sociais reais, como o desemprego, por exemplo.

“Quando você quer procurar um bode expiatório, alguém que você vai culpar por todos os problemas existentes na sociedade, o mais fácil é procurar aquele que é diferente. (...) A extrema direita utiliza a diferença para construir o ódio [ao imigrante], que é a base de seu discurso. Eles só conseguem crescer politicamente a partir dessa dicotomia amigo e inimigo”, explicou o professor Adriano Freixo.

Uma das consequência do crescimento da extrema direita pode ser vista no endurecimento de políticas migratórias em diversos países:

'Internacionalização' das seleções europeias

O alto fluxo migratório tem um impacto direto no futebol europeu, com presença cada vez maior de filhos e netos de imigrantes naturalizados em suas seleções — a maior parte africana ou muçulmana.

Para o professor Maurício Santoro, os descendentes de imigrantes conseguem espaço nessas equipes porqueo futebol é um dos espaços mais meritocráticos da sociedade,o que ajuda a minimizar seu viés racista.

“O futebol reflete essas tensões sociais decorrentes da imigração e com frequência as leva para um outro público, que talvez não se engajasse nesse tipo de debate. (...) Por isso, acaba virando também um elemento de disputa política, ideológica e social”, afirmou Santoro.

Segundo Santoro, casos de sucesso de descendentes de imigrantes que chegam ao mais alto nível, como os de Mbappé, Yamal e Zinedine Zidane, personificam a ascensão social possibilitada pelo esporte.

Por outro lado, muitos desses jogadores sofrem preconceito das torcidas organizadas europeias, ressalta o professor Adriano Freixo.

“Os jogadores de ascendência estrangeira tendem a ser bem [mais] politizados porque eles sentem na carne essa discriminação. E muitas vezes enfrentam o racismo dentro de campo e da própria torcida. (...) Ou seja, ao mesmo tempo que ele está ali representando a seleção, boa parte dos cidadãos daquele país não o reconhecem como um igual. É um contrassenso”, explicou Freixo.

Essa contradição cria uma lógica de "europeu quando ganha, imigrante quando perde", segundo Freixo, com torcedores jogando a culpa pela derrota sobre os jogadores filhos de imigrantes.

Em reação ao racismo, alguns jogadores da seleção francesa passaram a não cantar o hino da França durante as partidas — um fenômeno que ocorre desde o fim da década de 1990. O atacante Benzema, por exemplo, foi alvo de ataques da extrema direita por tomar essa posição em jogos entre 2013 e 2018.

Espanha: a exceção, mas nem tanto

A Espanha está entre as favoritas para vencer a Copa do Mundo, porém sua seleção não tem uma porcentagem expressiva de estrangeiros entre os jogadores convocados. Menos de 10% são filhos de imigrantes.

Mesmo assim, a pauta da imigração não fica de fora das conversas sobre futebol no país.Isso porque o melhor jogador da seleção atualmente,Lamine Yamal, é filho de africanos: seu pai nasceu em Marrocos e sua mãe, na Guiné-Equatorial. O atacante Nico Williams, que também é uma das estrelas do elenco, tem origem ganesa.

A ascendência de Yamal fez com que ele também fosse alvo deinsultos racistas— o mais recente deles ocorrido durante um amistoso da Espanha em março. A torcida presente no estádio começou acantar “quem não pular é muçulmano”, o que gerou repúdio por parte dogoverno espanhol.

Yamal, hoje com 18 anos, repreendeu de forma contundente os cânticos racistas. Dias depois, ele levantou a bandeira da Palestina durante comemorações de um título de sua equipe, imagem que rodou o mundo.

A Espanha recebeu pelo menos um milhão de não-europeus por ano entre 2022 e 2024, segundo o escritório de estatísticas do bloco europeu.O governo de Pedro Sanchez, no entanto, corre na contramão do restante da UE quando o assunto é política migratória.

AEspanha aprovou em abril uma regularização extraordinária e em massa para meio milhão de imigrantes.O premiê defendeu a medida como um ato de justiça e também de necessidade, para ajudar a enfrentar a falta de mão de obra no país.

Veja abaixo quem é filho de imigrantes nas convocações das seleções mencionadas na reportagem: